A garota gordinha e as cicatrizes

Eu era a garota gordinha, falante e brigona, que beijava os meninos no jardim de infância, que preferia Macabéa a Poliana Moça, que gostava do Darth Vader e que achava o máximo dizer para todos que tinha nascido no ano da queda do Muro de Berlim. Vinte e um anos depois, continuo quase do mesmo jeito, com muitas cicatrizes e vivendo de contar histórias. Poderia ser médica, como meus pais, ou advogada, como meu avô queria. No entanto, convivo com as feições de desânimo quando falo que sou jornalista. Ainda mais quando digo que tenho nível superior. “Mas, menina, o Supremo não derrubou a exigência do diploma?”, indagam. Nunca adiantou eu contar que, desde pequena, o que mais gostava era não poder entender tudo para depois matutar o que poderia ser.

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Daniela, jornalista, muito prazer :)

Poderia começar dizendo meu nome, idade, signo, mas isso não diria nada sobre mim. Quem eu sou? Jornalista – de alma e formação. Gosto de perguntar, de ouvir, de indagar, de insistir. Sou curiosa, mas não chata. Um dos meus passatempos preferidos no ônibus é ouvir conversas aleatórias. E observo as janelas dos prédios para tentar espiar o que as pessoas estão fazendo naquele instante em que as nossas vidas se cruzam. É assim – observando, escutando, prestando atenção ao aparentemente desinteressante – que já vi e ouvi coisas incríveis.

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