A garota gordinha e as cicatrizes
Eu era a garota gordinha, falante e brigona, que beijava os meninos no jardim de infância, que preferia Macabéa a Poliana Moça, que gostava do Darth Vader e que achava o máximo dizer para todos que tinha nascido no ano da queda do Muro de Berlim. Vinte e um anos depois, continuo quase do mesmo jeito, com muitas cicatrizes e vivendo de contar histórias. Poderia ser médica, como meus pais, ou advogada, como meu avô queria. No entanto, convivo com as feições de desânimo quando falo que sou jornalista. Ainda mais quando digo que tenho nível superior. “Mas, menina, o Supremo não derrubou a exigência do diploma?”, indagam. Nunca adiantou eu contar que, desde pequena, o que mais gostava era não poder entender tudo para depois matutar o que poderia ser.
Hoje, quando saio para a pauta sobre o aumento da taxa Selic, sinto que desci do salto alto e voltei ao vestido de babados: o que realmente significa o aumento do valor do dinheiro para os bancos, sendo que todo esse montante, de fato, nem existe? Corro para canto silencioso, onde possa maestrar alguns números e muitos porcentos para que eu possa dizer à Dona Maria que essa taxa – que, na cabeça dela, tanto faz ser escrita com C ou com S – pode significar o aumento de preços do macarrão que ela compra no mercado da esquina.
Três, dois, um. Hora de correr – literalmente – para o próximo desafio. O carro vermelho segue em direção a Santa Maria, a cerca de 25km do centro de Brasília. As construções vão mudando de forma e, ao longo do caminho, os edifícios vão virando casas simples ou barracos. Se fosse pelo desejo dos tios, vizinhos e aqueles acham que são amigos da família, dificilmente eu teria essa visão. Estaria no meu escritório refrigerado, vendo os carros passarem pela janela e todas as respostas que precisasse sairiam dos livros.
Escolhi, entretanto, me jogar de cabeça no abismo e apanhar todos os dias do desconhecido. Ora ele tem forma de números escabrosos, ora de políticos assustadoramente sorridentes. Mas – tenho que reconhecer depois de tantas lutas – a pancada é mais forte quando vem de algo que você conhece. Na chegada ao hospital da cidade-satélite, a fachada é nova e brilhante. Lá dentro, a rotineira angústia pela falta de atendimento ou de remédio me acerta um gancho de direita. Na coletiva, o diretor afirma que não houve desvio de dinheiro. Enquanto tento estancar o sangue, escrevo a matéria. Me pergunto qual o sentido de alguém viver do mau estar da população.
Controlo o nervosismo pela milésima vez para entrar ao vivo. Espero que a Dona Maria me ouça na sintonia e entenda que se ela não pensar direito no voto, vai continuar na fila do hospital porque o governo nada faz para garantir que o seu dinheiro seja bem empregado. Sim, são aqueles reais que lhe fizeram falta na farmácia ou na hora de pagar a conta de luz. Volto para o carro e me vejo no retrovisor: ganhei mais uma cicatriz. Mas a garota gordinha também aparece no reflexo, feliz e cheia de dúvidas. Pego a estrada de volta à capital federal e sinto que fiz a escolha certa.
4 Comentários





Sen-sa-cio-nal.
Ritmo, vários ganchos que criam todo o clima e um desfecho cinematográfico. Se apresentou bem demais.
Oi Daniela,
Parabéns pelo texto!
De fato, um roteiro interessantíssimo de vida.