
Rui Barbosa
Rui Barbosa, jurista, ministro da Fazenda (1889-1891), senador, BA (1897- 1908).
1. A mais triste das vidas e a mais triste das mortes são a vida e a morte do homem que não tem coragem de morrer pelo bem, quando por ele não possa viver.
2. Vulgar é o ler, raro o refletir… Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas. Já se vê quanto vai do saber aparente do saber real…
3. De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
4. Nesta palavra – Justiça – cabe quase inteira a noção da nossa felicidade na Terra. É a substância da civilização, a essência da sociedade, a síntese da política cristã. As nações medram ou desmedram, segundo a sabem ou não sabem guardar.
5. [...] em todo país civilizado, há duas necessidades fundamentais: que o Poder Legislativo represente o povo, isto é que a eleição não seja falsificada, e que o povo influa efetivamente sobre os seus representantes. E esta última necessidade é a primeira de todas, porque quando um povo tiver influência eficaz, e souber tê-la, o sistema eleitoral há de passar por força de fingimento a realidade. Ora, para influir inteligentemente, o requisito essencial é saber em que sentido a influência tem de se exercer, conhecer os próprios direitos e os meios de mantê-los, perceber os seus interesses e a maneira prática de os levar a efeito. O modo de ação que o povo tem sobre os poderes do estado é a opinião, poder supremo, impalpável e invisível, que paira sobre todos os poderes oficiais, que os domina, inspira, reprime e apoia. O cetro é seu, por direito.
6. Os governos, que têm explorado as acumulações, para aninhar os incompetentes, amigos seus, explorarão, doravante, as desacumulações, para beneficiar os incapazes, seus afilhados. Mera questão de mudança no sistema do arbítrio, de variação no regímen da incompetência, da moda na distribuição do nepotismo. As épocas de servilhismo e prostituição vivem destas superstições. [...]
7. A República não precisa de fazer-se terrível, mas de ser amável; não deve perseguir, mas conciliar; não carece de vingar-se, mas de esquecer; não tem que se coser na pele das antigas reações, mas que alargar e consolidar a liberdade.
8. [...] creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do Tesouro constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.
9. Má conselheira é a fome, especialmente para a multidão, em cujo seio há muitos instintos bons, muitas tendências nobres, muitos impulsos desinteressados, mas há também as paixões da ignorância, da indigência, da força. Quando, portanto, a necessidade, que, creio eu, desde que o mundo é mundo, não tem lei, lhe estiver surdamente despertando n’alma esses sentimentos cegos, importa reagir, com certa prudência, no sentido oposto, avivando-lhe esses sentimentos contrários, de abnegação, de paciência, de esperança, de altivez, de fé no trabalho, de ódio à injustiça, tão profundos no povo, mas tantas vezes entibiados, e, entretanto, tão necessários, tão salvadores nesses tempos de provação. [...]
10. A constituição não pode ser tropeço à liberdade, nem à soberania nacional.
11. A democracia que não existe entre nós senão nominalmente, porque as forças populares, pela incapacidade relativa em que as coloca a ausência de sistema de educação nacional, estão de fato mais ou menos excluídas do governo.
12. A escravidão do negro é a mutilação da liberdade do branco.
13. A escravidão é a usura. O que ela quer é o coração do homem vivo.
14. A escravidão, resumo de todos os crimes, supressão organizada do sentimento moral pela covardia e pelo roubo, aveza os povos à promiscuidade habitual com a ignorância, a miséria, a violência, a malversação.
15. A espada não é a ordem, mas a opressão; não é a tranquilidade, mas o terror; não é a disciplina, mas a anarquia; não é a moralidade, mas a corrupção; não é a economia, mas a bancarrota.
16. A força do direito deve superar o direito da força.
17. A imprensa é o dever da verdade.
18. A imprensa, entre os povos livres, não é só o instrumento de vista, não é unicamente o aparelho do ver. Participa nesses organismos coletivos, de quase todas as funções vitais. É, sobretudo, mediante a publicidade que os povos respiram.
19. A justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta.
20. A justiça está em reconhecer ao herói a glória dos atos em que ele rompia com o seu tempo.
21. A lei de Caim nunca pôs fim ao mal.
22. A liberdade de uma raça fundada na servidão de outra é a mais atroz das mentiras.
Agaciel Maia - Deputado Distrital / DF
Câmara Legislativa do Distrito Federal