Agaciel Maia Blog

Prefácio de Agaciel Maia

Saber Político – Mais de 5000 frases, máximas e provérbios de 1000 autores e 3500 fontes sobre política, liberdade, poder, justiça, ética e ideologia

Paixão pela Síntese.

“Os aforismos, as frases de efeito, as frases históricas, as máximas, os provérbios, sempre causam uma boa impressão ao leitor. Não é à toa que tantos livros atualmente apresentam coletânea de frases sobre vários assuntos, do que se passa no mundo da política e da moda, do bom humor e do mau humor, das celebridades e dos artistas em geral, dos apresentadores de programas em rádio e em televisão, das respostas de vestibulandos, na maioria das vezes hilárias, beirando o non sense, enfim, existe todo um mundo de publicações com o objetivo de reuní-las, organizá-las, tematizá-las. Muitos de nós nos encantamos ante a capacidade das pessoas de, em poucas palavras, transmitir seu pensamento de forma clara, cristalina, um feito em comparação com os simples mortais – sim, nem todos nascem frasistas, nem todos têm conhecimentos pró-verbiais, nem todos têm a presença de espírito para tratar um assunto sério com uma meia dúzia de palavras. O filósofo Nietzsche disse certa vez que “minha ambição é dizer em dez frases o que outro qualquer diz num livro, o que outro qualquer ‘não’ diz nem num livro inteiro”. E ele estava coberto de razão. O fato é que o tempo passou a ser mercadoria escassa, as mesmas 24 horas do dia já não comportam o volume de assuntos que cada um de nós, em sua esfera e área de ação, se defronta diariamente. Não é diferente com o tempo, sempre muito escasso, que nessa pós-modernidade podemos dedicar ao saudável – e até mesmo, atualmente luxuoso – hábito da leitura.

Por isso é comum vermos em um jornal diário ou em uma revista semanal de informação colunas fixas para dar relevo e destaque àquelas frases consideradas as “mais importantes” do dia ou da semana. Nas edições
da última semana do ano gregoriano páginas e mesmo cadernos são abertos para reverberar o conjuntos das frases mais significativas pronunciadas naqueles últimos 365 dias. É comum também que os grandes oradores e igualmente os aprendizes da arte de falar em público busquem amparo na citação de uma frase desse ou daquele pensador, desse ou daquele estadista. Se fizéssemos uma pesquisa no acervo de discursos das mais altas autoridades do Brasil e do exterior não iríamos nos admirar ao constatar que tão mais longo o pronunciamento maior o número de citações. Em pesquisa dessa natureza no campo do pensamento internacional são fáceis de encontrar frases, conceitos, definições, observações de luminares do conhecimento humano como Winston Churchill, Rui Barbosa, Mahatma Gandhi, Bertrand Russel, Dom Pedro I, Immanuel Kant, Tancredo Neves, Bertold Brecht, Carlos Lacerda, Ralph Emerson, Shoghi Effendi e tantos outros. E isto sem falar na galáxia de filósofos que vão de Sócrates, Platão, Nietzsche, Rousseau, Schopenhauer, Spinoza e tantos outros. Uma coisa é certa: nós brasileiros adoramos uma boa frase. E sem o saber, obedecemos ao preceito de Santo Tomás de Aquino, que recomendava a síntese, sob a alegação de que tudo o que é disperso, acaba perdido.

George Orwell, autor do clássico “1984”, escreveu que “a linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”. O certo é que frases esparsas ou uma coletânea de frases, ambas produzem efeitos que vão dos previsíveis aos inesperados.

Você, leitor atento, sabe quem proferiu a frase-admoestação: “Põe a coroa sobre a tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela?” Foi D. João VI, ao despedir-se de seu filho, D. Pedro, que ficava como regente do trono do Brasil, em 1821, por ocasião do regresso da Corte Portuguesa a Lisboa. E esta frase, que ecoa em nossa memória histórica: “Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico!?” Foi proferida pelo príncipe D. Pedro de Bragança, que seria, mais tarde, o primeiro Imperador do Brasil. D. Pedro era o herdeiro da coroa do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, do trono ocupado, então, por seu pai, o tolerante e operoso monarca que foi D. João VI. O rei, regressando a Portugal, escolhera o filho mais velho para ficar como regente, governando o Brasil e os brasileiros. Mas, depois de algum tempo, como D. Pedro, que muito amava o Brasil, para onde viera aos nove anos de idade, começava a dar sinais de grande independência e altivez, tomando medidas contrárias aos interesses da metrópole e destinadas somente a favorecer o novo reino e o bem-estar dos brasileiros, o que era muito grato aos sentimentos dos patriotas brasileiros e ao espírito nacionalista que se fazia prenúncio da próxima libertação, a corte portuguesa começou a fazer esforços no sentido de obter o regresso a Lisboa do príncipe herdeiro.

Uma frase pode ser o grito de nascimento de uma nação independente – como o famoso “Independência ou Morte!”, de Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Outra frase pode ser as últimas palavras da condenada à morte por enforcamento, que inocente, exclama em 31/8/1852: “Podeis me matar mas não podeis impedir a emancipação feminina!”. Uma frase pode ser polêmica e envolver uma grave situação diplomática entre dois países. Exemplo, sempre recorrente, tem sido o da frase atribuída ao presidente francês Charles de Gaulle, que no auge da crise política surgida entre Brasil e França, nos anos de 1960, decorrente da apreensão de pesqueiros franceses que capturavam lagostas na costa brasileira, irritado, teria dito: “Le Brésil n’est pas um pays sérieux.” (O Brasil não é um país sério.) Pois bem, De Gaulle morreu sem conseguir convencer que aquelas palavras não haviam saído de sua boca. Reza a lenda que o presidente francês afirmou quase todas as palavras dessa frase. Mas tem um detalhe, o adjetivo “sério” teria sido acrescentado pelo então embaixador do Brasil em Paris, Carlos Alves de Souza, para amenizar o estrago.

Cotejando essas frases, uma característica muito comum é de o autor desancar o governo, não importa se este é de direita, de centro ou de esquerda. Não importa também se o governo foi eleito democraticamente ou foi fruto de um golpe de estado. Uma coisa fica patente: falar mal do governo de plantão é quase uma unanimidade nacional. Pode-se melhor ilustrar esta constatação com a famosa frase do filósofo francês Joseph de Maistre (1753-1821), crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias. De Maistre afirmou: “Cada povo tem o governo que merece.” Cabe chamar a atenção para o fato de que apesar de a frase ter servido sempre para atanazar todos os governos, os alvos preferidos são aqueles escolhidos por voto popular. Porém, nada se diz quando os eleitores mostram sabedoria nas votações. Assim, contrariando a máxima popular, o filho feio sempre tem por pai o próprio povo. No fundo, a crítica não é aos maus governantes, mas aos responsáveis por sua elevação aos cargos.

Algumas frases primam pelo bom humor, principalmente quando proferidas por políticos, e aí não importa a matiz partidária ou o pensamento ideológico. O conhecido político fluminense Carlos Lacerda, ex-governador do Rio de Janeiro, além de tribuno reconhecido, certo dia, ouviu a provocação de um seu adversários na Câmara Federal: “O que Vossa Excelência me fala entra por um ouvido e sai pelo outro!” Lacerda não titubeou, respondeu de pronto: “Impossível, nobre colega, o som não se propaga no vácuo”. O Velho Senador, como era conhecido o potiguar Dinarte Mariz, ao prenunciar a caótica situação política que iria se abater sobre o Brasil não deixou por menos e vaticinou: “Estou prevendo uma crise política de consequências imprevisíveis.” O deputado Roberto Cam- pos, ao se despedir, em 1999, de seus dezesseis anos de vida parlamentar, resumiu essa fase de sua vida com estas palavras: “Como diria um dos meus gurus preferidos, o Brasil é a amante que mais amei, mas a que mais me enganou.” Em outra ocasião disse que “Brasil e Argentina parecem dois bêbados cambaleantes a cabecear nos postes. Só que, enquanto a Argentina parece estar a caminho da economia de mercado, o Brasil parece estar de volta ao bar.” E, cáustico, porém erudito no latim, Campos afirmou que “no Brasil, a res publica é cosa nostra.”

O senador José Sarney, pragmático e do alto de sua bagagem política, respondeu à indagação de uma repórter: “Prefiro falar de Jesus Cristo, que fez coxo andar, doente sarar, mas nunca fez um burro inteligente.” Del-
fim Netto, conhecido por suas metáforas, ao sinalizar a avaliação de um mandato presidencial, consegue sempre aliar concisão com contundência ao enunciar uma frase. É dele: “Se o governo comprar um circo, o anão começa a crescer”. E ao ver a profusão de médias estatísticas para explicar a economia não pensou duas vezes e veio com essa: “Se o sujeito está com o rabo no forno e a cabeça na geladeira, não se pode dizer que ele está com uma ótima temperatura média”. Quando o tema em voga é a questão do nepotismo, muitos políticos remoem pensamentos e nos apresentam em uma singela frase sua opinião sobre tema tão completo (para um político). Destaco esta frase de Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara dos Deputados: “Essa história de nepotismo é coisa para fracassados e derrotados que não souberam criar seus filhos.” Nos anos de 1980 o apresentador de televisão Sílvio Santos ensaiava seus passos para postular a prefeitura de São Paulo e, lá para as tantas, saiu-se com essa: “Jogada política, para mim, é jogar político para cima.” O deputado paulista Clodovil Hernandez respondeu a uma crítica feita pelo tucano Walter Feldman em novembro de 2006 com essas palavras: “Fala para ele que na próxima eleição, quando me candidatar de novo, vou fazer o possível para ter menos votos para ele não implicar comigo. Se eu pudesse, dava meus votos para ele não ficar tão triste, mas não posso fazer isso.”

Na história política contemporânea, os estudiosos de frases proferidas por políticos têm muito com que se regalar se pousar os olhos sobre as centenas de frases ditas por nosso atual presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Algumas frases ditas por Lula, uma vez proferidas, se eternizam de imediato, no imaginário brasileiro: “Aprendi a contar até dez apesar de só ter nove dedos, que é para não cometer erros”; e esta outra que prima pelo característico bom humor do presidente da República: “Minha mãe é uma senhora que já nasceu analfabeta”; e ainda esta, dita nos primeiros meses de seu mandato: “Tenho certeza de que só frustrei profundamente dois tipos de pessoas: aquelas que pensavam que meu governo seria um caos – e torciam para isso – e aquelas que, com paixão e ingenuidade, imaginavam que eu poderia resolver todos os problemas do Brasil em apenas quatro anos”. Em plena crise aérea no Brasil, ainda no rastro de duas terríveis tragédias da aviação recém-ocorridas no Brasil, em julho de 2007, ao empossar Nelson Jobim como ministro da Defesa, Lula afirmou candidamente: “Quando entro num avião, entrego para Deus”.

No panorama político não há quem deixe de se achar o próprio umbigo do mundo. O narcisismo parece ser uma doença congênita a muitos que vivem do ofício de pensar e escrever. Antônio Carlos Magalhães, veterano líder político baiano, foi mais longe em avaliar sua própria importância para a Bahia, ao afirmar que… “na Bahia, sou o mesmo que o Senhor do Bonfim: tudo o que acontece, sou o responsável”. Luiz Inácio Lula da Silva, já conhecido por seus arroubos de humildade, disse nada menos que: “Eu sou a única alternância de poder em 500 anos de história do país. Se eu errar, vão dizer que trabalhador não sabe governar.” E aí, não há como deixar ao largo a amplitude e sábia frase do maior jurista que o Brasil já teve, Rui Barbosa. Ele disse: “…de bustos e estátuas não sou lá grande entusiasta. Um homem em metal me parece duas vezes morto…”.
“Bem-aventurados os que a si mesmo se estatuaram em atos memoráveis, sem deixarem os seus retratos à posteridade, esquecidiça ou desdenhosa, vivem a sua vida póstuma desinteressadamente pelos benefícios que lhe herdaram.”

Muitos políticos são surpreendidos em entrevistas coletivas e outras nem tanto coletivas. O roteiro da entrevista nem sempre é seguido. Um exemplo. Quando o jornalista Boris Casoy, durante a campanha de 1985 para a prefeitura de São Paulo, perguntou se Fernando Henrique Cardoso acreditava em Deus, ele respondeu na bucha: “Você me prometeu que não faria esta pergunta!” Como se esquecer da entrevista dada pela então candidata à presidência do Brasil, senadora Heloísa Helena, respondendo a Fátima Bernardes, em entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo? “Minha filha, quem tem que entender de Reforma Agrária aqui sou eu.” Já em entrevista a programa do SBT, a mesma Heloísa Helena desabafou à jornalista Ana Paula Padrão: “Sou um poço de ternura, mas não colo- quem palavras, nem inventem mentiras a meu respeito, senão como boa nordestina que sou, viro uma onça sertaneja.”

Existem frases que de tão lúcidas, concisas e, até de certa maneira, poéticas, nos tocam com a emoção. Também do ex-presidente José Sarney encontramos essa jóia de concisão e de reconhecimento a outro político: “… a consolidação da democracia no Brasil se deve a Tancredo. Muitos brasileiros deram sua vida, mas Tancredo deu a sua morte”. Uma destas é a do saudoso senador Darcy Ribeiro, quando em seus últimos meses de vida desabafou: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” Poucos políticos são dados a derramar lágrimas em público e, quando o fazem, há uma dignidade no fazer. Como não lembrar estas palavras do ex-governador Mário Covas, ditas em uma entrevista coletiva no dia 30/11/2000? Covas disse: “Essas lágrimas não são de dor, não. E até não são muito próprias de mim. Eu sou muito mais das gritarias do que das lágrimas. De qualquer modo, tudo tem sido tão bom para mim que o meu grau de dívida com essa sociedade chamada sociedade humana é muito grande para que eu não tenha um móvel que me obriga a permanentemente tentar lutar… Desculpem-me se eu descambei, eu devia ter feito isso lá no quarto, por- que teria gasto as lágrimas e não teria feito aqui. Mas, afinal, fora o fato de chorar qual é a outra forma mais digna que uma pessoa tem de demonstrar os seus sentimentos?”

Abstraindo-nos do espírito que carrega cada frase, muitas são conceituais, outras proverbiais. O bem público, o bem-estar do povo, o louvor à liberdade, o apego ao estado de direito são temas recorrentes no linguajar político. Isto pode ser bem sintetizado nestas palavras do pensador Shoghi Effendi (1897-1957): “O maior tesouro de uma Nação é o seu povo.”

A coletânea que o leitor tem em mãos é dedicada, especialmente, aos políticos brasileiros, de todos os partidos e matizes ideológicos e também a outros pensadores de outras nações que detiveram o talento de condensar em umas poucas frases muito de seu extenso conhecimento e sabedoria. Nessas páginas são reunidas mais de 5.000 frases, ditados, máximas, slogans e provérbios. Privilegiaram-se autores brasileiros: passam dos 700. Acreditamos ter feito bom uso da liberdade de opinar aos decidirmos pela inclusão de alguns textos políticos ou sobre política que nos são muito caros, como a saborosa crônica de Machado de Assis sobre “O Grito do Ypiranga”, publicada no jornal carioca Gazeta de Notícias, em 15 de setembro de 1876, e o monumento hoje histórico que é a Carta-Testamento de Getúlio Vargas, de 23 de agosto de 1954.

Ainda no tocante aos criadores destes textos aqui reunidos resta-nos informar que se buscou garimpar uma coletânea bastante representativa do pensamento político universal, mas sem perder de vista a história política do Brasil.”

Agaciel da Silva Maia, 2010.

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